"Ao atravessar a rua, meus dedos infantis apertavam a mão de um homem, eu sabia que era o meu pai, mas ele tinha um outro rosto"
De todos os sonhos, foi o que mais me preencheu. Esse é o desejo que cobriria toda a minha falta.
É difícil escrever sobre um pai que nunca possuí. Alguém que sumia. Um homem alto, que dava passos longos. Desenhava. Escrevia. Roía as unhas até a carne. Fumava num corredor, sentado numa cadeira listrada. Tinha os pés sujos. As roupas largas. Os olhos vermelhos. Um dente quebrado. O queixo cortado. Sonhava, não com o futuro, mas com o passado. Era desatento. Não gravava as histórias que eu contava. Nunca quis olhar os meus cadernos.
Eu não sentia falta de um pai, porque a base da minha criação foi o carinho, a proteção, o cuidado. Isso supria o vazio que um dia eu iria perceber.
Quando eu tinha nove anos, eu perguntei por que ele sumia. Minha mãe me disse que ele ia pra clínicas, porque era dependente de drogas e que tinha um problema na cabeça. Eu lembro exatamente de chorar muito, sem entender o que significava. Talvez eu só tenha chorado por causa da expressão da minha mãe.
Anos depois, sentada no teu consultório, eu disse que chorava, sem saber o motivo. Disse que eu não tinha vontade de acordar. Então eu te olhei e falei que tu lembrava o meu pai.
Vocês dois são o oposto um do outro. Depois acabei vendo que as palavras carinhosas que tu me dizia, eu queria ouvir dele.
Na última vez em que te encontrei, eu abri o coração:
- É tão cruel eu pensar que vou lembrar de ti por toda a minha vida, vou lembrar de cada diálogo... e tu vai esquecer de tudo! Eu só tenho tu e tu tem outros pacientes. Não é justo! Não é justo!
Então, eu pude ver também, o teu coração. Lágrimas nos teus olhos. Tu se importou. Tu vai lembrar.
Tu me fez sentir um pouco de como é ter um pai. Dói pensar que os nossos abraços ficaram só na memória.